Canção do Pássaro sem Asas

Joka Faria

Eu era um pássaro e vivia livre nos ares. Mas Cortella dizia que não somos livres.

Eu já fui humano em inúmeras vidas, na tal Roda de Sansara, umas vezes nascendo mulher e outras, homem.

Mas um dia tentei fugir, no astral. Samael havia me dado dicas.

E fugi. Não entrava nas cavernas na hora dos trovões.

E fui achado por uns magos, que me transformaram em urubu.

E nasci, mas lembrando de minhas existências humanas.

Um dia, num acidente, perdi uma das asas numa torre de alta tensão. Fui resgatado por uma menina, que me adotou.

Levou-me para sua casa, perto de um imenso rio, e ali sobrevivi.

Sempre pensei na possibilidade da inexistência.

Que um tal Marcelo falava.

Mas, sem voar, sem me comunicar com quem um dia fui no caso humano, viver sem voar é estranho.

Voltei a recordar das Plêiades.

Mas como escapar desta prisão? Não sei.

Aguardo o fim, mas me divirto com ela num rio.

Liberdade? Quem realmente sabe o que é?

Quem dera um dia ser um golfinho para navegar no oceano cósmico.

Ainda sem asas, mas sonhando em voltar às Plêiades.

Quem realmente é você, que veste estas roupas de humano — no caso, seu corpo — e nasce indefeso e esquecido?

João Carlos Faria

Junho de 2026, último dia de outono.

Aos encontros secretos nas padarias do Grupo Caros Amigos.

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