Canção à Brisa de Outono

Joka Faria

Noite de outono é uma brisa. Adentra meu quarto. Leio a Folha de São Paulo; às vezes, matérias que servem para alguma coisa, outras nem tanto. O celular em silêncio. Já fechei o WhatsApp. Esta brisa, enquanto as matérias tentam nos alertar sobre o Super El Niño. Mas gosto mesmo é de leite em pó com açaí. Como gostaria de experimentar um açaí no Ver-o-Peso, em plena Amazônia. Mas tem o açaí juçara da Mata Atlântica.

Vi Celso de Alencar declamar seu poema sobre a calcinha, bem longe desta sensualidade esquizofrênica em que vivemos. O Facebook já não é o mesmo, mas ainda permite textos, enquanto as outras redes sociais são só vídeos. Que empresa irá criar redes sociais do Sul Global?

Salve o Entrementes e meus resistentes blogs. Continuo a não ter grana para lançar meu segundo livro. Contra o fascismo, só temos fé em nossa humanidade.

Estes dias, só fui ao cinema na sexta-feira, sem o pecado de nada. Sábado e domingo em silêncio, sem caminhadas, lendo jornais e postando minhas ousadias nas redes sociais.

De sexta para sábado, sonhei que vi um homem com vulva fazendo aqueles sexos de amarração. Quero escrever uma série de escritos com um heterônimo, pois a censura e a moral estão aí de forma velada. Por isso amei o livro de Vanessa Alves, Anônima. Ela, ao mesmo tempo, espaço no Rio de Janeiro, com Nélio Fernando e Edu Planchez. Gente de minha gente, a Tribo Invisível.

Escrever é nossa sina de resistência, como disse Milton Hatoum, que ainda não li. Agora estou com Casa-Grande & Senzala. Tanta gente boa como amigos nas redes sociais.

Como eu quero ter um espaço comunitário para se planejar revoluções. Um viva a Karl Marx; me chamem de comunista. Sou da tribo anárquica de Walt Whitman, Allen Ginsberg... E já fomos editores do LITTER. Hoje escrevo no Entrementes de Elizabeth Souza.

Cada edição do LITTER era uma provocação ao sistema, bancada com recursos públicos, uma provocação à caretice e à hipocrisia na década de 90. Eita Fundação Cultural Cassiano Ricardo sob o comando de André Freire e Beth Brait...

Merece vários livros de ficção, como este de Vanessa. Como é lindo ver surgir escritores que conseguem espaço na cena nacional, como Vanessa Alves, Marcus Groza, Franklin Maciel no YouTube...

Provocações vale-paraibanas contra a caretice deste século XXI. Um viva a Nietzsche e Jorge Mautner.

Esta brisa... E como meu heterônimo vai escrever sobre este homem com vulva? Sei lá... Vocês nunca a vão ler. Não irão achar no Blogspot...

Mas estou na resistência desde o LITTER. Já perdi blogs, escritos no Entrementes. E somos resistência nesta caretice da literatura atual. Só quero ter leitores e nada mais.

Acho que vou começar a me recolher nos finais de semana. A vida é curta para gastar tempo andando por aí...

Quero uma casa modesta em Campos do Jordão para ter uma brisa de outono o ano inteiro.

João Carlos Faria
31 de maio de 2026

Como eu gostaria de tirar férias de nossa desumanidade. Como na canção de Elizabeth Souza e Edson Souza: sair daqui para nunca mais voltar.

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